Brazlândia, no Distrito Federal, construiu parte importante de sua identidade a partir do campo. Antes de se tornar conhecida pela produção de morangos, goiabas e hortaliças, a região já reunia famílias com tradição agrícola, pequenas propriedades e áreas destinadas ao cultivo e à criação de animais. Ao longo das décadas, essa base rural ajudou a abastecer Brasília e transformou a região administrativa em um dos principais polos de produção de alimentos do Distrito Federal.
A agricultura de Brazlândia combina características históricas, econômicas e culturais. A produção familiar convive com propriedades de diferentes tamanhos, sistemas de irrigação, cultivos protegidos, assistência técnica e formas variadas de comercialização. O resultado é uma economia rural diversificada, na qual o morango ocupa lugar de destaque, mas não representa sozinho toda a produção da região.
Uma ocupação ligada ao trabalho no campo
A história de Brazlândia remonta ao período anterior à construção de Brasília. A área foi ocupada por famílias vindas principalmente de Goiás e de Minas Gerais, muitas delas ligadas à criação de animais e ao cultivo da terra. Essa presença rural permaneceu mesmo depois da criação da capital federal e contribuiu para a formação de uma região com características diferentes das áreas urbanizadas do Plano Piloto.
Com a implantação de Brasília, aumentou a demanda por alimentos frescos para atender à população que se concentrava na nova capital. A proximidade do mercado consumidor, a disponibilidade de áreas rurais e a organização de núcleos agrícolas favoreceram a expansão das lavouras. Brazlândia passou a desempenhar uma função estratégica no abastecimento de Brasília, especialmente no fornecimento de verduras, frutas e outros produtos de ciclo curto.
Entre as áreas rurais associadas a esse processo está o Núcleo Rural Alexandre de Gusmão. A região recebeu agricultores de diferentes origens, incluindo famílias japonesas e seus descendentes, que tiveram papel relevante na introdução e no aperfeiçoamento de técnicas de cultivo de frutas e hortaliças. A diversidade de trajetórias também marcou a formação social da agricultura local, reunindo migrantes, pioneiros, agricultores familiares e novos assentados.
O morango como símbolo de Brazlândia
O morango se tornou o principal símbolo da produção rural de Brazlândia. Segundo a Emater-DF, o cultivo da fruta começou a se desenvolver no Distrito Federal na década de 1970, concentrado sobretudo na região de Brazlândia e associado ao trabalho de agricultores japoneses e seus descendentes.
A cultura ganhou força na década de 1990, quando novas tecnologias, cultivares e técnicas de manejo foram difundidas com apoio da assistência técnica. O cultivo protegido, a irrigação, a melhoria da nutrição das plantas e a adoção de boas práticas ajudaram a ampliar a produtividade e a qualidade dos frutos.
O avanço da produção também alterou a relação entre o morango e os consumidores de Brasília. A fruta, que durante muito tempo era vista como um produto caro e de consumo restrito, passou a ser encontrada com mais frequência no comércio local e em feiras. Parte da produção também passou a ser transformada em geleias, polpas, doces, sorvetes, tortas, licores e outros alimentos, agregando valor ao trabalho dos produtores.
Dados reunidos pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional indicam que as famílias de Brazlândia respondem por mais de 90% da produção de morangos do Distrito Federal. O percentual reforça a concentração regional da atividade, embora os números possam variar conforme o ano, a metodologia e a fonte estatística utilizada.
Da produção à tradição cultural
A força econômica do morango também criou uma tradição cultural. A Festa do Morango de Brasília surgiu na década de 1990 como iniciativa da Emater-DF, das unidades de Alexandre de Gusmão e Brazlândia e da Associação Rural e Cultural Alexandre de Gusmão. O evento foi criado para divulgar a produção, estimular o consumo e aproximar os moradores da cidade do trabalho realizado nas propriedades rurais.
Com o passar dos anos, a festa deixou de ser apenas uma feira de comercialização. O evento passou a reunir exposição agrícola, gastronomia, venda de produtos derivados, atividades de colheita e programação cultural. A iniciativa também ajudou a preservar a memória das famílias produtoras e a valorizar a presença de diferentes grupos na formação da agricultura de Brazlândia.
Em 2026, o Iphan divulgou um inventário participativo sobre a Festa do Morango de Brazlândia. O trabalho reuniu relatos de moradores, pioneiros e agricultores familiares e relacionou a história do evento à produção agrícola e à cultura local. A publicação também destacou a participação de famílias japonesas, migrantes nordestinos, pioneiros e novos assentados na trajetória da região.
Uma produção rural mais diversificada
Embora o morango seja a cultura mais associada a Brazlândia, a produção rural local é formada por um conjunto amplo de atividades. Hortaliças como alface, tomate, pimentão, cebola, cenoura, repolho e outras verduras ocupam áreas relevantes e atendem principalmente ao mercado do Distrito Federal. A proximidade com Brasília reduz o tempo entre a colheita e a chegada dos alimentos ao consumidor.
A goiaba também tem importância econômica. Informações da Emater-DF apontam Brazlândia como a principal região produtora da fruta no Distrito Federal, concentrando cerca de 98% da área de cultivo. A atividade inclui tanto a comercialização da fruta in natura quanto o processamento em doces, geleias, sucos e outros produtos.
A região também possui áreas destinadas a outras frutas, grãos, pastagens e criações. A produção pecuária inclui bovinocultura, suinocultura e criação de aves, enquanto propriedades rurais combinam lavouras temporárias, fruticultura e atividades de subsistência. Essa diversidade reduz a dependência de uma única cultura e permite que diferentes perfis de produtores encontrem espaço no mercado.
Os dados mais recentes do relatório de produção agropecuária da Emater-DF mostram que o Distrito Federal mantém uma agricultura diversificada, com cultivos de grãos, frutas e hortaliças. As estatísticas são organizadas por ano e devem ser analisadas de acordo com a cultura, a área plantada, o volume produzido e o valor da produção.
Agricultura familiar e abastecimento de Brasília
A agricultura familiar tem papel central na produção de Brazlândia. Em muitas propriedades, o trabalho envolve diferentes gerações da mesma família, desde o preparo da terra até a colheita, a seleção, a embalagem e a venda. A mão de obra familiar pode ser complementada por trabalhadores contratados em períodos de maior demanda, especialmente durante as safras de frutas e hortaliças.
A localização de Brazlândia favorece a venda direta, o fornecimento para feiras, supermercados, restaurantes, centrais de abastecimento e programas institucionais. A curta distância até Brasília é uma vantagem para produtos perecíveis, que precisam ser transportados rapidamente e comercializados em boas condições.
Além do fornecimento de alimentos, a atividade rural movimenta serviços de transporte, assistência técnica, comércio de insumos, manutenção de equipamentos, beneficiamento e processamento. Dessa forma, os efeitos econômicos da agricultura ultrapassam os limites das propriedades e alcançam a área urbana da região administrativa e outras partes do Distrito Federal.
A assistência técnica pública também tem importância na modernização das propriedades. A Emater-DF atua com orientações sobre manejo, irrigação, custos, comercialização, boas práticas agrícolas e agregação de valor. No caso do morango, a instituição publicou materiais técnicos sobre cultivares, cultivo protegido, nutrição das plantas, controle de pragas e qualidade da produção.
Desafios tecnológicos e econômicos
A produção de morangos em Brazlândia enfrenta desafios semelhantes aos observados em outras regiões especializadas. Um estudo publicado em 2026 na Revista de Política Agrícola, da Embrapa, identificou dificuldades relacionadas ao custo de produção, à disponibilidade de mão de obra, à qualidade das mudas, à adoção de estruturas protegidas e à adaptação de cultivares ao clima local.
O estudo também apontou problemas de gestão, como o controle insuficiente dos custos, o uso pouco eficiente de água, fertilizantes e defensivos e o manejo uniforme de variedades com necessidades diferentes. As conclusões indicam que o futuro da atividade depende não apenas do aumento da área plantada, mas também da melhoria da eficiência, da qualidade e da organização comercial.
Outro desafio é a necessidade de conciliar produtividade e conservação dos recursos naturais. A irrigação é fundamental para hortaliças e frutas, especialmente durante o período de estiagem no Distrito Federal. Por isso, o uso racional da água, a manutenção dos sistemas e o planejamento das culturas são fatores importantes para a sustentabilidade das propriedades.
Também existem obstáculos relacionados à comercialização. A oscilação de preços, a perecibilidade dos alimentos, os custos de transporte e a concorrência com produtos de outras regiões podem reduzir a margem dos agricultores. A agroindustrialização, a venda direta e a formação de cooperativas ou associações são alternativas para ampliar o poder de negociação e diminuir perdas.
Pesquisa, inovação e futuro do campo
A trajetória de Brazlândia mostra que a produção rural se transformou com a combinação entre conhecimento tradicional, imigração, pesquisa e assistência técnica. Técnicas trazidas por agricultores de outras regiões foram adaptadas às condições do Cerrado, enquanto instituições públicas contribuíram para testar variedades, aperfeiçoar o manejo e melhorar a qualidade dos alimentos.
O próprio perfil da agricultura do Distrito Federal mudou com o tempo. A Produção Agrícola Municipal do IBGE reúne informações sobre área plantada, área colhida, quantidade, rendimento médio e valor da produção. A partir de 2025, a pesquisa passou a incluir produtos como morango, alface, pimentão, milho verde, chuchu, repolho e cenoura, ampliando a visibilidade estatística de culturas importantes para regiões produtoras de hortaliças.
Em Brazlândia, a inovação tende a estar ligada à produção protegida, à irrigação eficiente, ao controle biológico, à rastreabilidade, à melhoria das mudas e à redução de perdas após a colheita. A qualificação da gestão das propriedades também é decisiva para que os agricultores conheçam melhor seus custos e possam escolher os canais de venda mais adequados.
Uma identidade rural que permanece
A agricultura e a produção rural de Brazlândia não são apenas setores econômicos. Elas fazem parte da memória e da identidade da região. O morango se tornou um símbolo reconhecido em todo o Distrito Federal, mas sua importância está relacionada a uma estrutura produtiva mais ampla, formada por hortaliças, frutas, criação de animais, agroindústrias e trabalho familiar.
Ao abastecer Brasília e preservar práticas transmitidas entre gerações, Brazlândia mantém uma relação direta entre campo e cidade. A história da região demonstra como a agricultura foi capaz de acompanhar a expansão da capital, incorporar novas tecnologias e continuar gerando renda, empregos e referências culturais.
O futuro dessa produção dependerá da capacidade de enfrentar custos, mudanças climáticas, disponibilidade de água, mão de obra e comercialização. Também dependerá da continuidade das políticas de assistência técnica, pesquisa e valorização da agricultura familiar. Mesmo diante desses desafios, Brazlândia permanece como uma das áreas rurais mais importantes do Distrito Federal e como referência na produção de alimentos para Brasília.