A história da Cidade Estrutural está ligada a uma das principais contradições da urbanização do Distrito Federal. Enquanto Brasília foi planejada como uma capital moderna, organizada e integrada por grandes eixos viários, a ocupação da Estrutural surgiu nas proximidades de uma área destinada à disposição de resíduos. Ao longo das décadas, o território passou de um núcleo associado ao trabalho de catadores a uma região administrativa com moradias, comércio, equipamentos públicos e demandas próprias.
Essa trajetória ajuda a compreender como o crescimento de Brasília ocorreu para além dos limites do Plano Piloto. A expansão urbana foi acompanhada pela chegada de trabalhadores, pela busca por moradia acessível e pela formação de núcleos habitacionais em áreas nem sempre preparadas para receber ocupação permanente. Na Estrutural, urbanização, desigualdade social, trabalho informal e política ambiental se desenvolveram de forma entrelaçada.
Uma ocupação formada ao redor do depósito de resíduos
O antigo lixão de Brasília, também conhecido como Lixão da Estrutural ou Aterro Controlado do Jóquei, começou a ser utilizado na década de 1960 para receber resíduos do Distrito Federal. A disposição ocorria diretamente no solo, sem os padrões de tratamento e controle associados aos aterros sanitários modernos. A área se tornou uma fonte de renda para pessoas que recolhiam materiais recicláveis e reutilizáveis entre os resíduos descartados. (gov.br)
A presença dos catadores contribuiu para a formação de moradias nas proximidades do depósito. A ocupação cresceu de modo gradual e, especialmente a partir dos anos 1990, ganhou escala e maior permanência. A falta de infraestrutura urbana acompanhou esse processo, com dificuldades relacionadas a pavimentação, saneamento, transporte, iluminação, regularização dos lotes e acesso contínuo a serviços públicos.
O surgimento da Estrutural não foi um episódio isolado. Ele se relaciona ao processo mais amplo de expansão periférica do Distrito Federal, que produziu novos núcleos habitacionais para abrigar trabalhadores e famílias que não conseguiam se estabelecer nas áreas mais valorizadas de Brasília. Estudos sobre a ocupação territorial do DF apontam que a expansão da capital ocorreu de maneira polinucleada, com forte separação entre áreas de emprego, moradia e serviços. (gov.br)
Da ocupação informal à Região Administrativa
Durante parte de sua formação, a Vila Estrutural esteve vinculada administrativamente ao Guará. A criação do Setor Complementar de Indústria e Abastecimento, o SCIA, marcou uma tentativa de organizar institucionalmente a área e reunir atividades urbanas e econômicas do entorno. Em 27 de janeiro de 2004, a Lei nº 3.315 transformou o SCIA na Região Administrativa XXV, tendo a Vila Estrutural como sua área urbana. (segov.df.gov.br)
A mudança administrativa não significou a solução imediata dos problemas urbanos. Ela, porém, deu à região uma estrutura institucional própria e ampliou a responsabilidade do poder público sobre planejamento, manutenção e oferta de serviços. O reconhecimento como região administrativa também reforçou a presença da Estrutural no mapa político e territorial do Distrito Federal.
Outro marco ocorreu em 2006, quando a Vila Estrutural foi declarada Zona Especial de Interesse Social, a chamada ZEIS, por meio da Lei Complementar nº 715. A medida abriu caminho para a regularização fundiária e para a elaboração de projetos urbanísticos específicos, mas condicionou esse processo ao atendimento de exigências ambientais e urbanísticas previstas em estudos de impacto. (economia.df.gov.br)
A necessidade de conciliar moradia e proteção ambiental decorre das características físicas da área. A ocupação se desenvolveu em um território influenciado pela antiga atividade de disposição de resíduos e por áreas consideradas ambientalmente sensíveis. Por isso, a consolidação urbana não poderia ser tratada apenas como abertura de ruas e instalação de redes. Também envolvia avaliação do solo, drenagem, destinação de áreas de risco e recuperação de espaços degradados.
Infraestrutura e mudanças no cotidiano
A urbanização da Estrutural ocorreu por etapas. A abertura e a pavimentação de vias, a instalação de redes de água e energia, a melhoria da iluminação pública e a construção de equipamentos de educação, esporte e atendimento social alteraram o cotidiano dos moradores. O processo, contudo, foi desigual entre os setores e não eliminou a existência de áreas com infraestrutura insuficiente.
A presença da Via Estrutural, oficialmente ligada à DF-095, também teve papel importante na conexão da região com outras partes do Distrito Federal. A estrada facilita o deslocamento entre a Estrutural, o Plano Piloto, Taguatinga, Ceilândia e áreas de atividade industrial e comercial. Ao mesmo tempo, a dependência de grandes eixos rodoviários evidencia uma característica comum da urbanização do DF: longas distâncias entre moradia, emprego, serviços e equipamentos públicos.
Com a consolidação das moradias, o perfil econômico da região se tornou mais diversificado. A coleta de materiais recicláveis continuou sendo uma atividade relevante para parte dos trabalhadores, mas deixou de representar a única forma de inserção econômica. Comércio local, prestação de serviços, atividades públicas e deslocamentos diários para outras regiões passaram a compor a dinâmica social da Cidade Estrutural.
A região também recebeu equipamentos voltados à educação, ao esporte e à formação profissional. O Instituto Federal de Brasília, por exemplo, tornou-se uma das instituições de ensino presentes no território e passou a representar uma alternativa de formação técnica e profissional para moradores da Estrutural e de áreas próximas. (gov.br)
O fechamento do lixão e a mudança na economia local
O encerramento do antigo lixão foi o principal marco recente da transformação urbana e ambiental da Estrutural. A Política Nacional de Resíduos Sólidos, instituída pela Lei nº 12.305, de 2 de agosto de 2010, estabeleceu diretrizes para substituir lixões e ampliar o uso de soluções ambientalmente adequadas para a disposição final dos rejeitos.
Depois de sucessivos debates e mudanças no cronograma, as atividades do Lixão da Estrutural foram oficialmente encerradas em 20 de janeiro de 2018. O fechamento ocorreu após a entrada em operação do Aterro Sanitário de Brasília e foi acompanhado por medidas de limpeza, cobertura dos resíduos e reorganização da área. (slu.df.gov.br)
A medida reduziu a exposição direta de trabalhadores e moradores aos riscos associados à atividade no lixão, mas também interrompeu uma fonte de renda utilizada por centenas de catadores. Por isso, o encerramento exigiu políticas de transição, incluindo a transferência de trabalhadores para cooperativas e centros de triagem, além da ampliação da coleta seletiva e da comercialização organizada de recicláveis.
O fim do lixão não apagou a relação entre a cidade e a reciclagem. A atividade passou a ser apresentada como parte de uma cadeia formalizada de gestão de resíduos, com trabalhadores organizados em cooperativas e atuação em galpões de triagem. Na prática, a transição foi complexa porque envolveu renda, equipamentos, contratos, qualificação, transporte e adaptação a novas condições de trabalho.
Uma nova paisagem depois de 2018
O fechamento do depósito alterou a paisagem da região. Durante décadas, o lixão funcionou como referência territorial, econômica e simbólica para a Estrutural. Com a desativação, a área passou por ações de cobertura dos resíduos, conformação do terreno e reorganização para receber materiais inertes da construção civil. (slu.df.gov.br)
A transformação ambiental, entretanto, não encerra os desafios urbanos. A recuperação de uma área utilizada por décadas para receber resíduos depende de monitoramento, controle de ocupações, manejo das águas e acompanhamento dos possíveis impactos sobre o solo e os recursos naturais. Também exige que a política de resíduos seja mantida fora da antiga área do lixão, com coleta seletiva, triagem e destinação adequada.
Para os moradores, a mudança mais importante não se resume à retirada do lixo. O desafio passou a ser consolidar uma cidade com qualidade urbana, serviços regulares e oportunidades econômicas que não dependam da precariedade. A permanência de desigualdades entre setores, a necessidade de melhorias em calçadas, drenagem, transporte, lazer e equipamentos públicos mostram que o processo de urbanização continua em andamento.
Estrutural e a história social de Brasília
A Cidade Estrutural ocupa um lugar específico na história de Brasília porque expõe a distância entre o projeto original da capital e a cidade efetivamente construída ao longo do tempo. O Plano Piloto foi concebido dentro de uma lógica urbanística própria, com áreas residenciais, setores funcionais e grandes espaços livres. A expansão populacional, porém, criou uma rede urbana muito mais ampla, formada por regiões administrativas com origens, densidades e condições sociais distintas.
Nesse contexto, a Estrutural representa a transformação de uma ocupação associada ao descarte em uma comunidade urbana permanente. A história local mostra que os moradores não foram apenas ocupantes de uma área periférica: participaram da construção econômica e social do Distrito Federal, especialmente por meio do trabalho de coleta e recuperação de materiais recicláveis.
Também evidencia os limites de um modelo de crescimento que demorou a incorporar a população de baixa renda ao planejamento formal. A regularização posterior, a instalação de infraestrutura e o reconhecimento administrativo foram respostas a uma ocupação que já havia criado vínculos, moradias, relações de vizinhança e formas próprias de organização.
Por isso, compreender a Estrutural exige observar simultaneamente três dimensões. A primeira é urbana, marcada pela expansão da cidade e pela implantação gradual de infraestrutura. A segunda é social, relacionada à moradia, ao trabalho, à renda e à organização comunitária. A terceira é ambiental, associada ao antigo lixão, à recuperação da área e à necessidade de novas formas de gestão dos resíduos.
A trajetória da Cidade Estrutural permanece em construção. O fechamento do lixão modificou o principal elemento econômico e ambiental do território, mas não resolveu automaticamente as desigualdades acumuladas. A consolidação da região depende da continuidade das políticas de urbanização, da qualidade dos serviços públicos, da proteção ambiental e da inclusão dos trabalhadores da reciclagem.
Mais do que um capítulo à parte da história de Brasília, a Estrutural ajuda a explicar como a capital se tornou uma metrópole formada por diferentes cidades. Sua evolução revela que as mudanças urbanas do Distrito Federal não ocorreram apenas por meio de planos e projetos oficiais, mas também pela ação cotidiana de trabalhadores e famílias que ocuparam, transformaram e reivindicaram espaço na cidade.