O Gama, no Distrito Federal, é uma das regiões administrativas mais antigas de Brasília. Sua formação está diretamente ligada à transferência da capital do país para o Planalto Central, à construção da barragem do Lago Paranoá e à criação de núcleos habitacionais para abrigar trabalhadores e famílias removidas de outras áreas.
Conhecido oficialmente como Região Administrativa do Gama, ou RA II, o território reúne uma área urbana planejada e extensas áreas rurais. A região também funciona como polo de comércio, serviços, saúde, educação e transporte para moradores de cidades do Distrito Federal e de municípios goianos próximos.
Como surgiu o Gama
Antes da construção de Brasília, a área onde hoje está o Gama era formada por propriedades rurais, entre elas as fazendas Gama, Ponte Alta, Ipê e Alagado. O território fazia parte da área escolhida para receber a nova capital e estava ligado administrativamente à antiga Santa Luzia, atual Luziânia, em Goiás.
O Censo Experimental de Brasília, realizado em 1959, registrou cerca de 1.000 pessoas na área que posteriormente daria origem ao Gama. Naquele período, a ocupação era predominantemente rural, com moradores distribuídos entre as fazendas e núcleos existentes na região.
A formação do núcleo urbano começou em 1960, durante a implantação de Brasília. A Administração Regional informa que 30 famílias retiradas da área da barragem do Lago Paranoá foram assentadas no local. As primeiras construções eram simples e ainda não contavam com serviços básicos como água encanada, iluminação pública e rede de esgoto.
A data de 12 de outubro de 1960 é tradicionalmente adotada como marco de fundação do Gama. Registros legislativos também mencionam 1966 como o ano de criação da cidade para receber famílias que viviam em ocupações próximas ao Lago Paranoá, além de moradores da Vila Planalto, da Vila Amauri e, posteriormente, do Setor de Indústria de Taguatinga. A diferença está relacionada às etapas de formação e consolidação do núcleo urbano.
De cidade planejada a Região Administrativa
O Gama foi incorporado à estrutura administrativa do Distrito Federal em 1964, quando o território foi dividido em oito regiões administrativas. Mais tarde, em 1989, a RA II foi reorganizada pela Lei nº 49 e pelo Decreto nº 11.921, que estabeleceram novos limites para as regiões administrativas do DF.
Naquele momento, o território do Gama era maior do que o atual. A criação de Santa Maria, em 1992, e do Recanto das Emas, em 1993, reduziu a área administrativa original. O Núcleo Rural Santa Maria, que fazia parte do Gama, foi desmembrado para formar a Região Administrativa de Santa Maria. O mesmo ocorreu com áreas que passaram a integrar o Recanto das Emas.
Segundo o perfil territorial do Gama elaborado pelo IPEDF, a região está localizada na porção sudoeste do Distrito Federal e tem área de aproximadamente 27.541 hectares. O território atual continua incluindo zonas urbanas e rurais, o que diferencia o Gama de regiões mais densamente ocupadas e predominantemente urbanas.
O formato de colmeia
Uma das características mais conhecidas do Gama é o desenho urbano que lembra uma colmeia. As quadras têm formato hexagonal e são organizadas internamente em áreas triangulares. Em cada conjunto há lotes residenciais e um setor comercial, estrutura que procura aproximar os serviços do cotidiano das moradias.
A área urbana é dividida nos setores Norte, Sul, Leste, Oeste, Central e de Indústria. O modelo foi concebido para organizar a expansão da cidade e distribuir atividades comerciais, residenciais e industriais. Mesmo com as transformações ocorridas ao longo das décadas, o traçado continua sendo uma das marcas da identidade urbana do Gama.
A região também abriga áreas rurais como Ponte Alta, Ponte Alta de Baixo, Ponte Alta Norte, Monjolo, Alagado e Córrego Crispim. Essas localidades mantêm atividades agrícolas, chácaras e propriedades de produção, além de áreas de transição entre o espaço urbano e o campo.
Quem são os moradores do Gama
O Gama passou por forte crescimento populacional desde os primeiros assentamentos. A Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios de 2021 estimou em 137.331 o número de moradores da população urbana da região. O levantamento também apontou que o Gama tinha, entre as regiões administrativas da Unidade de Planejamento Territorial Sul, a maior população e a maior renda média mensal.
Os dados precisam ser interpretados de acordo com o ano e a metodologia de cada levantamento. Estimativas divulgadas posteriormente por órgãos do Governo do Distrito Federal mencionaram cerca de 160 mil habitantes ao tratar de investimentos e serviços públicos. Por isso, números de diferentes períodos não devem ser comparados sem considerar a fonte e o conceito utilizado.
O perfil econômico dos moradores combina empregos no próprio Gama com deslocamentos para outras regiões. De acordo com dados da Codeplan referentes à PDAD 2021, 59,3% da população com 14 anos ou mais fazia parte da população economicamente ativa. Entre os ocupados, 39,6% trabalhavam na própria região administrativa e 29,1% tinham o Plano Piloto como local de trabalho.
Esses números ajudam a explicar a posição do Gama como uma cidade com vida econômica própria, mas ainda conectada ao centro de Brasília. A presença de comércio, serviços públicos, escolas, unidades de saúde, empresas e atividades industriais reduz parte da necessidade de deslocamento diário, embora muitos moradores continuem trabalhando ou estudando fora da região.
A renda média mensal da população urbana do Gama foi estimada em R$ 4.906,69 na apresentação da PDAD 2021 sobre as regiões da Unidade de Planejamento Territorial Sul. Já a renda bruta média do trabalho principal, em valores de julho de 2021, foi registrada em R$ 2.708. Os indicadores representam conceitos diferentes: o primeiro considera a renda média domiciliar per capita apresentada no levantamento, enquanto o segundo se refere à remuneração do trabalho principal.
Na educação, o Gama apresentou um dos melhores resultados entre as regiões analisadas no sul do Distrito Federal. A pesquisa indicou que 27,3% dos moradores haviam concluído algum curso de nível superior. O dado revela a presença de uma população com diferentes níveis de escolaridade, formada tanto por famílias que chegaram durante a construção de Brasília quanto por gerações nascidas e criadas na própria região.
Uma cidade que atende também o Entorno
A importância do Gama ultrapassa os limites administrativos do Distrito Federal. A região exerce influência sobre municípios da chamada Periferia Metropolitana de Brasília, como Novo Gama, Valparaíso de Goiás, Cidade Ocidental, Luziânia e Santo Antônio do Descoberto.
Essa influência ocorre principalmente por meio do comércio, dos serviços de saúde, da educação e do transporte. Moradores de cidades próximas utilizam equipamentos públicos e estabelecimentos comerciais do Gama, enquanto trabalhadores da região também circulam diariamente por municípios do Entorno e por outras áreas do DF.
O Hospital Regional do Gama, construído em 1967, tornou-se uma referência para a população local e para moradores de cidades próximas. A unidade foi criada quando a região ainda tinha uma população muito menor e passou a atender uma área mais ampla à medida que surgiram novas regiões administrativas e aumentou a ocupação do sul do Distrito Federal.
Comércio, serviços e identidade local
O comércio é uma das principais bases da vida cotidiana no Gama. Os setores comerciais distribuídos pelas quadras oferecem serviços de alimentação, educação, saúde, manutenção, vestuário e atendimento profissional. A área central concentra atividades de maior alcance e se articula com o setor de indústria e com os bairros residenciais.
A região também desenvolveu uma identidade cultural própria. Equipamentos como o Centro Cultural do Gama, o Teatro Galpãozinho e o Teatro Espaço Semente fazem parte da rede de espaços voltados à produção e à circulação cultural. Festas religiosas, atividades comunitárias, eventos esportivos e iniciativas de associações de moradores ajudam a preservar vínculos construídos ao longo de décadas.
O futebol é outro elemento associado à imagem do Gama. A Sociedade Esportiva do Gama ganhou projeção nacional no fim dos anos 1990, quando disputou as principais competições do país. O clube se tornou uma referência esportiva e um símbolo de identificação para parte dos moradores.
O nome Gama e a memória da região
A origem do nome Gama está associada à antiga Fazenda Gama, ao Platô do Gama e ao ribeirão que nasce na região. A Administração Regional também registra uma explicação segundo a qual o nome poderia ser uma homenagem ao padre Luiz da Gama Mendonça, religioso que celebrava missas em localidades afastadas. Não há, porém, consenso documental definitivo sobre a origem da denominação.
O ribeirão e o platô permanecem como referências geográficas importantes. A paisagem do Gama, marcada pela combinação de áreas urbanizadas, chácaras, cursos d’água e zonas de cerrado, ajuda a explicar por que a região mantém características distintas dentro do Distrito Federal.
O Gama na história de Brasília
A história do Gama acompanha as principais etapas de formação de Brasília. A região nasceu para receber famílias deslocadas pela construção da capital, cresceu com a chegada de trabalhadores e se consolidou como um núcleo urbano planejado, com comércio, serviços e instituições próprias.
Mais de seis décadas depois do início de sua ocupação, o Gama mantém a condição de uma das áreas mais relevantes do sul do Distrito Federal. Seus moradores formam uma comunidade marcada pela presença de famílias antigas, novos residentes, trabalhadores do setor público e privado, estudantes, comerciantes, produtores rurais e pessoas que mantêm vínculos com as cidades do Entorno.
Conhecer o Gama é compreender uma parte da história de Brasília que não se limita ao Plano Piloto. A região mostra como a capital se expandiu, como os assentamentos deram origem a novas centralidades e como comunidades formadas durante a construção da cidade desenvolveram identidade, economia e vida própria.
Fontes: Administração Regional do Gama, IPEDF/Codeplan e Câmara Legislativa do Distrito Federal.








