O Guará, no Distrito Federal, é uma das regiões administrativas mais próximas do centro de Brasília. A área fica em uma posição estratégica entre o Plano Piloto e Taguatinga e reúne bairros residenciais, comércio, serviços, parques e importantes vias de circulação do Distrito Federal.
A história do Guará está ligada aos primeiros anos de construção e consolidação de Brasília. A região surgiu para atender trabalhadores da Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil, a Novacap, funcionários públicos e moradores de núcleos provisórios que se formaram durante a implantação da nova capital.
Com o passar das décadas, o antigo conjunto habitacional horizontal deu lugar a uma área urbana diversificada. O Guará preserva parte das características de sua formação original, mas também passou por adensamento, verticalização e valorização imobiliária.
Como surgiu o Guará
As primeiras propostas de ocupação da área foram elaboradas em 1966 pela Sociedade de Habitação de Interesse Social, a antiga SHIS. O projeto tinha como referência uma pequena ocupação conhecida como Vila Guará, localizada nas proximidades do córrego que atravessa a região.
Em 1967, a Novacap iniciou o chamado Mutirão da Casa Própria. A iniciativa previa a construção de moradias para trabalhadores ligados à implantação de Brasília e ao Setor de Indústria e Abastecimento, o SIA. Parte das casas foi construída em regime de mutirão, com participação dos próprios funcionários.
O primeiro trecho foi inaugurado em abril de 1969, com cerca de 800 moradias. A inauguração oficial da cidade ocorreu em 5 de maio daquele ano. O nome Guará foi adotado em referência ao córrego Guará, cuja denominação está associada ao lobo-guará, animal típico do Cerrado e presente na região antes da expansão urbana.
Na origem, o núcleo era conhecido como Setor Residencial, Indústria e Abastecimento, ou SRIA. A área foi planejada para atender uma demanda habitacional específica: oferecer moradia a trabalhadores que atuavam na construção e no funcionamento da nova capital.
A formação do Guará I e do Guará II
O primeiro conjunto residencial ficou conhecido como Guará I. A ocupação inicial era marcada por casas de padrão semelhante, ruas largas e organização urbana horizontal. A QI 5 é apontada em documentos oficiais como uma das primeiras quadras concluídas.
O crescimento da população e a chegada de novos servidores levaram à expansão do núcleo. Em março de 1972, foi inaugurado o Guará II, destinado principalmente a funcionários públicos federais e a famílias inscritas nos programas habitacionais da época.
A expansão alterou a escala da região, que passou a contar com novas quadras, áreas comerciais e equipamentos públicos. A construção do Guará II também consolidou a presença da cidade no eixo urbano que liga o Plano Piloto a outras áreas do Distrito Federal.
Em 1973, um decreto criou a Administração Regional do Setor Residencial Indústria e Abastecimento, abrangendo o Guará I, o Guará II e o SIA. Mais tarde, o Setor de Indústria e Abastecimento foi desmembrado e passou a constituir uma região administrativa própria.
A atual Região Administrativa do Guará, identificada como RA X, foi criada em 1989, quando uma reorganização administrativa do Distrito Federal estabeleceu novas regiões. A delimitação passou a incluir o Guará I, o Guará II e outras áreas urbanas vinculadas à região.
De cidade planejada a área urbana consolidada
O Guará mudou de perfil ao longo do tempo. As casas construídas nas décadas de 1960 e 1970 continuam presentes em algumas quadras, mas muitas foram reformadas, ampliadas ou substituídas por sobrados e edifícios residenciais.
O processo de transformação acompanhou o crescimento econômico e populacional do Distrito Federal. Segundo a Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios de 2021, elaborada pelo Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal, a população urbana da região era de 142.083 pessoas.
A expansão não ocorreu de maneira uniforme. As áreas tradicionais mantiveram o predomínio de casas e blocos residenciais mais baixos, enquanto setores próximos a grandes vias e áreas de comércio passaram a receber empreendimentos de maior densidade.
O Guará também se tornou uma região procurada por moradores que buscam proximidade com o Plano Piloto sem abrir mão de uma estrutura urbana própria. A oferta de comércio, escolas, serviços de saúde, áreas de lazer e transporte contribuiu para a consolidação dessa identidade.
Localização e mobilidade
A posição do Guará é um dos principais fatores de sua importância dentro do Distrito Federal. A região está próxima do Plano Piloto e se conecta a outras áreas por vias como a Estrada Parque Indústria e Abastecimento, a EPIA, e a Estrada Parque Taguatinga, a EPTG.
Esses eixos fazem parte da rotina de moradores que trabalham ou estudam em Brasília, Taguatinga, Águas Claras, Núcleo Bandeirante, Candangolândia e no próprio SIA. Ao mesmo tempo, a localização favoreceu a instalação de empreendimentos comerciais e de serviços.
O Guará também é atendido pelo Metrô-DF. As estações Guará e Feira estão integradas ao sistema metroviário que liga a região central de Brasília a cidades como Ceilândia e Samambaia. A presença do metrô reforçou a conexão da região com outras partes do Distrito Federal.
A mobilidade, porém, também representa um dos desafios urbanos locais. O crescimento do número de moradores, veículos e empreendimentos aumentou a pressão sobre os acessos e sobre as vias que ligam o Guará às regiões vizinhas.
Feira do Guará virou símbolo da cidade
Entre os principais pontos de referência do Guará está a Feira do Guará. O espaço se consolidou como um centro de comércio popular e de convivência, com bancas de alimentos, produtos regionais, temperos, artesanato, roupas e outros itens.
A feira ultrapassou a função comercial e passou a fazer parte da identidade cultural da região. Sua história está ligada ao cotidiano dos moradores e ao fluxo de visitantes de outras áreas do Distrito Federal.
Além da venda de produtos, a Feira do Guará funciona como espaço de encontro. A diversidade de mercadorias e a presença de comerciantes de diferentes origens refletem a formação social de Brasília e de suas regiões administrativas.
O local também foi incluído em debates públicos sobre preservação cultural, modernização da estrutura e reconhecimento de sua relevância social e econômica. A discussão envolve a necessidade de melhorar as instalações sem descaracterizar a tradição da feira.
Parques e áreas verdes
Apesar do adensamento urbano, o Guará possui áreas verdes importantes para a preservação ambiental e para o lazer da população. A principal delas é o Parque Ecológico Ezechias Heringer, conhecido como Parque do Guará.
A unidade recebeu o nome do engenheiro agrônomo e ambientalista Ezechias Heringer, pioneiro nos estudos sobre o Cerrado e as orquídeas do Distrito Federal. Heringer chegou a Brasília em 1960 e desenvolveu pesquisas em diferentes áreas da capital.
O parque abriga trechos de cerrado, mata de galeria, nascentes e áreas associadas ao córrego Guará. Documentos do governo distrital registram a presença de centenas de espécies vegetais, incluindo orquídeas, árvores, arbustos e ervas.
A área também oferece espaços destinados a atividades de lazer e educação ambiental, como trilhas, pista de caminhada, equipamentos esportivos, playground e orquidário. A preservação do parque é considerada relevante porque a unidade mantém remanescentes naturais em uma área cercada pela expansão urbana.
Outro espaço de lazer é o Parque Denner, que possui pista de caminhada, quadras e parquinho. A região também é vizinha de outras áreas ambientais, como o Bosque dos Eucaliptos e unidades de conservação relacionadas à bacia do Riacho Fundo.
Cultura, esporte e vida comunitária
A vida cultural do Guará se desenvolveu a partir da atuação de moradores, associações, escolas, grupos artísticos e equipamentos públicos. A Casa da Cultura e outros espaços comunitários recebem atividades, exposições, apresentações e ações voltadas à formação cultural.
O esporte também ocupa um papel importante na rotina local. Quadras, campos, ginásios e pistas de caminhada são utilizados por moradores de diferentes idades. Eventos comunitários e programações comemorativas costumam ocupar áreas como o Parque Ezechias Heringer e espaços próximos à Feira do Guará.
Esse conjunto de atividades ajuda a explicar por que o Guará não funciona apenas como uma área residencial ligada ao Plano Piloto. A região desenvolveu comércio, serviços e referências próprias, formando uma identidade urbana reconhecida no Distrito Federal.
O Guará no contexto de Brasília
A trajetória do Guará acompanha mudanças importantes da capital federal. A região nasceu em um momento em que Brasília precisava criar moradias para trabalhadores e servidores. Depois, passou por expansão habitacional, reorganização administrativa, crescimento econômico e transformação do perfil imobiliário.
O resultado é uma área que combina memória dos primeiros anos da capital com características de uma cidade contemporânea. As casas das primeiras quadras, a Feira do Guará, o metrô, os parques e os novos edifícios fazem parte de uma paisagem marcada por diferentes etapas de ocupação.
Conhecer o Guará é também entender como Brasília se expandiu para além do Plano Piloto. A região mostra que a construção da capital não se limitou ao projeto monumental do centro administrativo: envolveu a criação de comunidades, bairros e redes urbanas destinadas a sustentar a vida cotidiana do Distrito Federal.
Mais de cinco décadas depois da inauguração oficial, o Guará permanece próximo do centro de Brasília, mas consolidou uma história própria. Sua evolução combina planejamento habitacional, crescimento populacional, preservação ambiental, comércio tradicional e participação comunitária.